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A paranoia da extrema-direita

30 de novembro de 2009

Há alguns anos, namorei uma mulher maravilhosa que aos poucos foi corroída pela esquizofrenia até literalmente esquecer de minha existência. O que caracterizava de modo mais perceptível a presença desse mal em sua mente era a série de delírios de perseguição e teorias conspiratórias que ela desfiava, para espanto dos que não a viam com meus olhos.

Minha ex-namorada era paranoica. Acreditava que estava sendo perseguida por alguém muito poderoso (a que jamais dava o nome, mas que parecia ser dono de metade do universo e ter poderes sobrenaturais). Afora isso, elaborava as hipóteses mais absurdas a partir de fatos dispersos de seu cotidiano. Eu a ouvia muitas vezes sem conseguir separar o que era real do que era delírio, em seus relatos.

Em alguns casos, porém, o que ela falava era tão absurdo que me desmontava, me desconstruía (não necessariamente no sentido de Derrida; como no título desse blog, “descontruir” nesse caso quer dizer tão somente “desmontar”). Era como se ela fosse capaz de deformar toda a maquinaria lógica da minha mente com uma única frase. E isso, embora me encantasse, me afastava dela.

Estamos vivendo uma situação semelhante em nosso país. Certos órgãos de imprensa, particularmente alguns colunistas que escrevem para esses órgãos, aderiram a discursos conspiratórios e fantasias políticas cada vez mais bizarras. Como na mente da pessoa a quem o senso de realidade está abandonando, as conexões entre os fragmentos de fatos vão se ligando num mosaico caleidoscópico que se sustenta tão só pela vontade, que seus mantenedores manifestam, de alimentar crenças tão fundamentadas quanto um castelo de cartas num banco de areia.

Há um conjunto de ilusionistas que são responsáveis por dar combustível à insânia do que se convencionou chamar de “extrema-direita”. Não é preciso nominá-los. Todos sabem quem são. Seus chefes os pagam para montar discursos que poriam em risco a credibilidade do periódico se fossem publicados como reportagens, uma vez que são ataques claros – e não dissimulados, como costumam ser os que vão no corpo do jornal – e sem quaisquer provas. São armas retóricas que dependem da crença de seus difusores para ganhar eficácia. São objetos de fé a incendiar a reputação dos que ousam mijar fora de sua bacia.

A paranoia dessa porção do espectro político sempre foi sua marca registrada. Espalhar lendas horripilantes sobre seus adversários, como dizer que “comem criancinhas” ou agora que “curram meninotes”, é uma arma com que os obscurantistas defensores da Tradição, da Família e da Propriedade tentam subjugar as mentes suscetíveis. Cultivadores do medo, querem paralisar o pensamento, porque este se opõe a eles. Tudo que desejam é poder dominar uma massa tornada raquítica, a pedir a benção dos poucos “mais fortes”.

O método não mudou: a extrema-direita sempre viveu da ignorância e do medo. A novidade é que, o que há alguns anos, ficava restrito a grupos sem voz, como a própria TFP, os seguidores do Mídia sem Máscara, os discursos vaiados do Bolsonaro e as viúvas da Ditadura com seu “Terror Nunca Mais” (Ternuma), começa a ganhar mais espaço e avança sobre grandes periódicos, publicando suas sandices com a aprovação de editores irresponsáveis e consumindo o resto de credibilidade dessas revistas e jornais.

A ficha falsa da Dilma é um exemplo de como algo que foi divulgado inicialmente pelo Ternuma e difundido em spams pelos extremistas acabou ganhando a primeira página de um jornal que até o início da década passada era um modelo a ser seguido por todos os jornalistas – ao menos era o que nos ensinavam na graduação.

Junte-se a isso o bafafá em torno do suposto sequestro que o grupo “terrorista” da ministra “podia ter cometido” nos idos da ditadura e pode-se ver que a aproximação entre os extremistas da direita e certos periódicos nacionais não é mais uma teoria conspiratória insensata – como alguns dirão. Trata-se de um fato: parte da imprensa namora com a extrema-direita. E o faz de modo tão ostensivo e diante dos olhares de tantos, que devia ir presa por atentado ao pudor.

O fruto mais recente desse nheco-nheco ideológico é a publicação e a repercussão do texto de César Benjamin em que ele acusa o presidente Lula de ter tentado currar um jovem enquanto esteve preso. Sem apresentar qualquer prova, houve quem imediatamente concordasse com “Cesinha” e afirmasse que Lula era sim um estuprador. Montaram o delírio, deram corda e agora um sem-número de lunáticos repetem à exaustão a fantasia anti-Lula por que tanto ansiavam com a boca espumando.

Não bastasse isso, já há um upgrade dessa farsa. Na sexta-feira, ouvi de um direitista nada moderado que o ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, fazia parte do MEP, o movimento do suposto menino estuprado, e que sua morte ainda não havia sido esclarecida. Pronto! O mosaico de fragmentos de fatos está montado. Para os esquizofrênicos da política, Celso Daniel seria o menino do MEP que teria sido estuprado por Lula e foi morto pelo PT para que a verdade não viesse à tona. Ufa! É difícil acompanhar tal raciocínio. Tortuosos são os caminhos da loucura.

É preciso estar atento para os spams divulgando essa versão, que com certeza não saiu da cabeça da pessoa com quem conversei, mas de algum dos fazedores de delírios que infestam as redações dos jornais. Se há quem caia ainda hoje na história da aprovação do “fim do 13º”, como não se preocupar com o estrago de tão elaborado e convidativo absurdo nas mentes suscetíveis que ainda não sucumbiram à insânia?

Nos EUA, a paranoia da extrema-direita está pouco a pouco retomando o poder no país e conduzindo o governo em direção a uma nova era Bush. No Brasil, não são poucos os delirantes que gostariam que déssemos uma guinada de volta aos “bons tempos” da era de chumbo. Os profetas do caos voltaram a ter voz. Convém calá-los com a melhor arma que nos foi confiada: a verdade.

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