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uma crônica

20 de fevereiro de 2010

– Sou de esquerda – disse o rapaz à mesa do jantar.

O pai engoliu sua porção de foie gras antes que a mastigação e a saliva o amolecessem. A irmã não deu importância – “grande coisa ele ser canhoto”. A mãe tentou encerrar o assunto, antes que ele se consolidasse, com um:

– Como foi hoje na universidade?

O rapaz respirou fundo e repetiu a confissão:

– Sou de esquerda.

Nesse momento, o pai o olhou com seriedade. Seu rosto estava vermelho.

– Que quer dizer com isso?

– O senhor ouviu: Sou de esquerda.

A mãe começou a chorar. O pai levantou a voz:

– Viu o que fez à sua mãe?

– Eu não fiz nada. Não posso mudar o que sou.

– É aquela sua universidade… pública! Malditos estudos! Aquele bando de jovens que acham que imposto pra financiar miserável nunca é demais, porque não são eles que pagam. Aqueles professores vagabundos que, em vez de tentar enriquecer, ficam se preocupando com os outros. Foram os livros deles que botaram isso na sua cabeça, não foi? Eu falei pra sua mãe: não deixa ele fazer universidade pública, bota na Mackenzie, na Anhembi Morumbi… mas não! Você deixou ele entrar nesse antro de subversivos!

– Tanto que eu fiz por esse menino. – falou a mãe, derramando lágrimas histéricas. – Botei ele em colégio tradicional, onde não entra livro de comunista. Dei assinatura da Veja, do Estadão, da Folha… Até paguei aquela palestra cara com aquela gente sabida que escreve tão bem… como é o nome deles? Reinaldo, não é? E Arnaldo… E tem aquele que trabalha na televisão… aquele que escreveu aquele livro que prova que aqui não tem racismo… Homem sábio. Vê as coisas. Tanto nome importante lá… gente de cabeça feita. Eles não falaram pra você que isso que você diz que é é coisa de gente doida, que não enxerga a razão?

– Eu não fui.

– Eu sabia! – gritou o pai, lançando sua taça de Dom Pérignon contra seu Monet preferido. – A culpa é sua, mulher! Ele deve ter puxado sua família. Você não tinha um tio que vivia dizendo que pobre é gente?

– Não bota a culpa na minha família, não! Não vem falar de subversivo pro meu lado, não, que eu sei que sua mãe já queimou sutiã. Aquele meu tio era um doido. Era um terrorista. Ele foi preso e tudo. Até se matou na cadeia.

– O tio Deco foi morto.

– Não desmente sua mãe, menino! Você quer se preocupar com quem não tem o que comer? Então vai começar ficando sem comer pra saber como é. Já pro seu quarto!

A mãe ficou olhando o filho se retirar. Imaginou os livros que o rapaz estaria lendo. As pessoas com quem estaria andando.

– Onde erramos?

– Eu sou de direita, mãe. – disse a filha, mostrando que era destra.

Pai e mãe se olharam. Súbito, um sorriso. Nem tudo estava perdido.

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