Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Depoimento pessoal.

9 de agosto de 2010

Há várias coisas no governo Lula com as quais não concordo, mas é preciso reconhecer suas conquistas. Posso falar particularmente com relação à universidade federal a qual estou ligado há quase dez anos.

Quando entrei na graduação, o sucateamento era evidente. A discussão que se tinha era de quando se começaria a cobrar mensalidade e de quanto seria. Os professores com mais tempo de casa debandaram. Muitos sequer tinham mestrado. Não era preciso muito pra ser professor universitário. A maioria do quadro era composta por substitutos, de nível baixo e sem qualquer experiência letiva. Não tínhamos estrutura adequada para produzir nosso jornal laboratório, as salas de aulas mal tinham ventiladores funcionando e pairava a ameaça de que fechariam o restaurante universitário e reduziriam (se não extinguiriam) os auxílios para estudantes carentes vindos do interior. Foram tempos difíceis.

Quando Lula subiu o palanque, houve alguma comoção, mas ela esfriou com a campanha midiática de 2005. Ainda assim, aos poucos a ameaça de pagamento de mensalidade foi minguando até quedar no resmungo de velhos professores reacionários. Certas taxas exorbitantes que nos eram cobradas foram extintas. Particularmente nos últimos 6 anos houve uma expansão no número de vagas, de cursos e de professores, além da melhoria do quadro, já constituída por doutores e mestres. Novos prédios foram construídos, inclusive um para abrigar a rádio universitária e um para o jornal laboratório. A universidade abriu campi em várias cidades do interior, além de instituir cursos a distância. Dos raros mestrados e único doutorado do tempo de FHC, partimos para dezenas de mestrados e mais de uma dezena de doutorados. E olha que somos o menor Estado da federação. Cursos inéditos no país foram criados, como o de Arqueologia – antes só pós-graduação.

As bolsas para pós-graduandos aumentaram consideravelmente. Eu mesmo sou um bolsista e vivemos – eu, minha esposa e nossos 7 gatos – com alguma folga com o valor disponibilizado. Sempre há novos concursos se apresentando. Estou confiante que encontrarei vaga como professor em uma das diversas universidades federais de que esse país dispõe, talvez antes mesmo de concluir meu doutorado. Enfim… estou razoavelmente satisfeito com as ações do governo Lula no que tange à minha universidade federal, cá em Sergipe. Falo dela porque é o exemplo que melhor posso esmiuçar. Tenho certeza, porém, que qualquer um de nós pode apresentar ótimos exemplos de como sua vida melhorou nos últimos 7 anos e meio. Basta ter pé no chão e olhos livres de preconceitos.

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O Razoável Imperfeito.

9 de julho de 2010

Nos Estados Unidos dos anos 1950 e 1960, o Estado do Bem-Estar Social, ao garantir o suprimento de ao menos alguns serviços essenciais a parcelas da população impedidas de vivenciar plenamente as benesses da sociedade de consumo, constituía uma válvula de escape que impedia que a insatisfação com o modelo levasse a levantes populares que pudessem ameaçar o status quo. Sabe-se que essa válvula não era a solução definitiva. Havia inúmeras falhas.

Ao estimular desejos de consumo impossíveis de serem satisfeitos e ao propagar como seu mito legitimador a “meritocracia” (que pregava, entre outras coisas, que o sucesso correspondia à soma de talento e esforço), o capitalismo industrial abriu espaço para que suas contradições levassem a uma situação insustentável. Negros, mulheres, gays e minorias étnicas logo perceberam que os melhores empregos estavam vedados para si e que, não importava o quanto se esforçassem, jamais alcançariam o nível de vida de homens brancos heterossexuais de ascendência inglesa, mesmo que estes últimos fossem muito menos competentes que eles. O resultado foi o acúmulo da revolta até que ela estourasse.

1968 representou o marco de uma nova era para os movimentos políticos, com a ascensão de novas demandas, muito diferentes das do tradicional movimento operário. A velha esquerda precisou repensar-se ante o surgimento de um nova esquerda, preocupada mais com os excluídos que com os explorados. Era o espírito da época. Graças ao keynesianismo, os cidadãos de países desenvolvidos viram garantidos direitos fundamentais, como acesso quase universal a uma educação de qualidade – o que resultou no desenvolvimento de uma juventude consciente das contradições do modelo e disposta a transformá-lo segundo demandas redescobertas.

Além de demandas de inserção econômica, como a criação de cotas para negros, mulheres e portadores de deficiência em empregos e universidades, havia também solicitações de direitos específicos como a possibilidade de interromper voluntariamente a gravidez sem ir para a cadeia e a permissão para casar “de papel passado” com alguém do mesmo sexo e adotar uma criança para ser filha de pais do mesmo sexo. Essas demandas permanecem ainda hoje. Embora haja quem acredite que elas sobrecarregam o Estado, não existe impedimento para a transformação em lei da maioria dessas demandas (se não todas). O único entrave é a reação dos conservadores.

A resposta conservadora à geração de 1968 não demorou. Ela veio na forma do chamado “neo-liberalismo”. Partindo de uma corruptela do ideal iluminista de liberdade, esse modelo previa o desmantelamento de todos os mecanismos institucionais de salvaguarda coletiva contra infortúnios individuais, como a previdência social e os serviços públicos de qualidade. Como desculpa, o pensamento neo-liberal afirmava que o Estado do Bem-Estar Social gerara insatisfação ao falhar em satisfazer todas as demandas dos excluídos, assim sendo melhor seria simplesmente não satisfazer demanda alguma. As pessoas seriam deixadas à própria sorte para que buscassem satisfazer, do modo que pudessem, as demandas que julgavam ter.

Cabe aqui outro nome que não cinismo? Trata-se de um raciocínio distorcido, do tipo a que são afeitos os satisfeitos com a desigualdade capitalista. Ora, se o Estado do Bem-Estar gerava insatisfação ao não satisfazer todas as demandas, que satisfação poderiam ter os excluídos na impossibilidade de satisfazer qualquer demanda? E como poderia satisfazer-se por conta própria alguém que mal tem acesso ao mercado onde todas as demandas imagináveis sejam magicamente satisfeitas? Se o Estado não provém e o mercado cobra caro demais para fazê-lo, como aqueles que foram postos fora da disputa por um lugar ao sol conseguirão satisfazer suas necessidades básicas?

Nesse caso, tem-se uma armadilha que poucos percebem, mas que domina grandes lotes do debate público: diante da revelada imperfeição do modelo mais razoável disponível, sempre será apontada uma solução claramente absurda. Quem propõe parte do pressuposto de que os outros acreditam inicialmente na possibilidade da perfeição. Ao apontar uma falha considerada grave no modelo adversário, ele busca exclui-lo das possibilidades à mão, deixando seu interlocutor com a sensação de vazio pela ausência de um modelo utilizável. Aproveitará o ensejo para propor sua alternativa absurda como a única viável. Se alguém empregar o mesmo raciocínio que ele e mostrar a imperfeição do modelo proposto, ele se sairá dizendo que este é o único possível. Esse caminho tortuoso esteve na base do consenso neoconservador e ainda paira nos raciocínios empregados por reacionários em diversas ocasiões.

Fui alvo de um desses quando defendi a ONU como única instância que poderia ter legitimidade para cobrar o cumprimento dos direitos humanos em todos os cantos do globo. Recebi em troca um sorriso maroto de meu interlocutor, logo acompanhado pela platéia. A pessoa a quem eu me contrapunha afirmou que a ONU não tinha força para se impor, um defeito facilmente constatável e que, em minha opinião, deveria ser corrigido. Como alternativa, ele propôs que uma hoste de “melhores” se elevasse sobre os demais – pela força, falou inicialmente, para depois desdizer-se. Essa elite global devia impor seus valores superiores a todos no mundo, não dando espaço para ninguém defender seus costumes ou diferentes sensos de justiça. O absurdo foi mais aceito do que o razoável imperfeito.

O único modo de escapar dessa armadilha é reconhecer que nenhuma opção política está livre de falhas ou mesmo de contradições internas que possam até levá-la à ruína. Cabe-nos distinguir quais são as opções razoáveis e quais as absurdas, recusar essas últimas e adotar somente as primeiras. Não importa o quão imperfeito o razoável seja, o absurdo jamais será uma alternativa viável.

uma crônica

20 de fevereiro de 2010

– Sou de esquerda – disse o rapaz à mesa do jantar.

O pai engoliu sua porção de foie gras antes que a mastigação e a saliva o amolecessem. A irmã não deu importância – “grande coisa ele ser canhoto”. A mãe tentou encerrar o assunto, antes que ele se consolidasse, com um:

– Como foi hoje na universidade?

O rapaz respirou fundo e repetiu a confissão:

– Sou de esquerda.

Nesse momento, o pai o olhou com seriedade. Seu rosto estava vermelho.

– Que quer dizer com isso?

– O senhor ouviu: Sou de esquerda.

A mãe começou a chorar. O pai levantou a voz:

– Viu o que fez à sua mãe?

– Eu não fiz nada. Não posso mudar o que sou.

– É aquela sua universidade… pública! Malditos estudos! Aquele bando de jovens que acham que imposto pra financiar miserável nunca é demais, porque não são eles que pagam. Aqueles professores vagabundos que, em vez de tentar enriquecer, ficam se preocupando com os outros. Foram os livros deles que botaram isso na sua cabeça, não foi? Eu falei pra sua mãe: não deixa ele fazer universidade pública, bota na Mackenzie, na Anhembi Morumbi… mas não! Você deixou ele entrar nesse antro de subversivos!

– Tanto que eu fiz por esse menino. – falou a mãe, derramando lágrimas histéricas. – Botei ele em colégio tradicional, onde não entra livro de comunista. Dei assinatura da Veja, do Estadão, da Folha… Até paguei aquela palestra cara com aquela gente sabida que escreve tão bem… como é o nome deles? Reinaldo, não é? E Arnaldo… E tem aquele que trabalha na televisão… aquele que escreveu aquele livro que prova que aqui não tem racismo… Homem sábio. Vê as coisas. Tanto nome importante lá… gente de cabeça feita. Eles não falaram pra você que isso que você diz que é é coisa de gente doida, que não enxerga a razão?

– Eu não fui.

– Eu sabia! – gritou o pai, lançando sua taça de Dom Pérignon contra seu Monet preferido. – A culpa é sua, mulher! Ele deve ter puxado sua família. Você não tinha um tio que vivia dizendo que pobre é gente?

– Não bota a culpa na minha família, não! Não vem falar de subversivo pro meu lado, não, que eu sei que sua mãe já queimou sutiã. Aquele meu tio era um doido. Era um terrorista. Ele foi preso e tudo. Até se matou na cadeia.

– O tio Deco foi morto.

– Não desmente sua mãe, menino! Você quer se preocupar com quem não tem o que comer? Então vai começar ficando sem comer pra saber como é. Já pro seu quarto!

A mãe ficou olhando o filho se retirar. Imaginou os livros que o rapaz estaria lendo. As pessoas com quem estaria andando.

– Onde erramos?

– Eu sou de direita, mãe. – disse a filha, mostrando que era destra.

Pai e mãe se olharam. Súbito, um sorriso. Nem tudo estava perdido.

Esperança e Medo

15 de dezembro de 2009

Em 2002, quando Lula venceu a eleição para presidente da república foi dito que “a esperança venceu o medo”. De fato. A campanha daquele ano fora marcada pela declaração da atriz Regina Duarte de que tinha “medo” (sic) do futuro do país nas mãos do candidato do PT. A isso, respondeu uma belíssima peça publicitária desse partido, em que o cantor e compositor Chico Buarque falava sobre “esperança” ao som do Bolero de Ravel enquanto mulheres grávidas vestidas de branco andavam juntas por um campo verde.

Em vez de uma mera retórica para a TV, como seria possível pensar, a contraposição entre os que tinham medo de Lula e os que nutriam a esperança de que ele pudesse levar o país a tempos melhores marcou um conflito entre duas categorias políticas razoavelmente delimitadas: reacionários e progressistas. Os primeiros estavam em boa parte satisfeitos com o status quo. Os demais, nem tanto. De um lado, os que não desejavam mudanças por julgar que o risco de perderem seus privilégios de classe eram maiores do que a chance de obter benefícios. Do outro, os que “nada tinham a perder senão seus grilhões”. No meio, indivíduos que votavam segundo os formadores de opinião que tinham em conta.

Naquele momento, Lula era uma incógnita. Sabia-se apenas que o Brasil jamais seria o mesmo caso ele fosse eleito. Era um ex-operário de aspecto e falar rudes, com histórico de lutas trabalhistas, personagem-símbolo do maior partido de esquerda da América Latina. Para completar o quadro, havia migrado com a família – ainda pequeno – da caatinga a São Paulo num caminhão pau-de-arara fugindo da miséria. Tratava-se de uma figura de caráter forte demais para não marcar, com sua ascensão ao cargo mais importante da república, uma mudança significativa nos rumos do país. Em períodos de ruptura, dois comportamentos antagônicos costumam ser despertados ante a novidade. São eles, a repulsa e o abraço. Em 2002, Lula contou com o abraço dos eleitores após três eleições seguidas de repulsa.

Em 2010, a situação se mostra diferente. O ultra-popular presidente Luís Inácio Lula da Silva já não é o novo (uma vez que governa o país há sete anos) – e ao mesmo tempo é (como representante da mudança em curso). Essa condição ambivalente contamina também sua candidata à presidência, a ministra da casa civil, Dilma Rousseff, que passa a ser, ao mesmo tempo, ela mesma e a sucessora de Lula. É, em parte, uma incógnita e, em parte, uma certeza. Essa última, se conseguir convencer seus eleitores de que saberá levar adiante o legado do chefe. E não só. Também será preciso que a Dilma ela mesma conquiste a parte do eleitorado que não está disposta a votar em alguém apenas porque o Lula indicou. Esse será apenas um dos problemas que o PT precisará enfrentar: convencer a população de que Dilma é um “Lula de saias”, mas também uma mulher valorosa e uma administradora competente.

Graças à crise econômica em andamento, a posição dos tucanos também se tornou problemática. O PSDB identificou-se por anos com os ideais do neoliberalismo. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso governou o país tendo os principios do Consenso de Washington sempre em mente. Com a falência desse dogma, o partido ficou sem identidade, uma vez que já não pode contar com a aura de “moderno” e “realista” que os jornalistas e colunistas de apoio lhe conferiram. Some-se a isso o sucesso do governo Lula na condução da economia durante a recente crise seguindo, não os princípios neoliberais, mas sua alternativa imediata: o modelo social-democrático de intervenção estatal calcado enormemente em Keynes, redescoberto após décadas de hegemonia do laissez-faire.

O PSDB já não tem discurso. Até o momento não mostraram nada que possa se contrapor ao que o governo Lula vem fazendo. Mesmo os rótulos de “competente” e de “ético” com que tentava se diferenciar do PT vêm sendo corroídos pela realidade. Em locais governados pelos tucanos escândalos de mau uso e de desvio de dinheiro público vêm brotando em jornais e revistas comedidamente, e na internet de modo mais aberto. Sem ter o que apresentar ao eleitorado como alternativa a Lula, o partido deve apoiar sua campanha em ataques histéricos à candidata do atual presidente, calcados em “reportagens” da chamada “grande mídia”, geralmente encomendadas ou compradas ao custo de contratos com administrações tucanas, com ênfase na revista Veja, nos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, nas organizações Globo e na Rede Bandeirantes. A tática de amendrontar o eleitorado será a principal arma da oposição.

O discurso do medo, porém, tende a ser ineficaz nesse caso. Dificilmente as acusações que têm sido feitas a Dilma resistem a uma investigação séria. Se a ministra conseguir mostrar-se como a “legítima” sucessora de Lula, a esperança de consolidar e aprofundar as mudanças ocorridas no governo atual ajudará a blindá-la contra ataques que não sejam baseados em provas irrefutáveis.

Há um fato a mais que deve ser levado em considerção: como disse a amiga Maria Frô no twitter, uma boa parte parte da população brasileira ascendeu socialmente nos últimos sete anos. A classe média é agora majoritária. É para eles que devem se dirigir as campanhas. Nesse ponto, um fator inesperado entra em curso: o medo, que antes fora a arma do PSDB, é agora um aliado do PT. Essa nova classe média, que venceu a pobreza graças aos programas sociais do governo e à melhoria das condições econômicas do país, é conservadora em essência. Com isso, não quero dizer que seja de direita, mas conservadora em si, ou seja, ela quer manter o que conquistou. Para ela, a eleição do PSDB é a ameaça. Manter o governo no curso apontado pelo Lula garantiria, para esses eleitores, não apenas a estabilidade econômica, mas mesmo a chance de ascender ainda mais.

Sendo assim, o PT terá a esperança e o medo em suas mãos. E o PSDB, pouco do que nada – tão só os favores de uma imprensa que cada vez mais perde credibilidade. Se o partido do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff mantiver o tom de seu recente programa televisivo, ficará difícil para seu mais provável adversário levar a eleição para o segundo turno.

Governo do Povo… sem povo?

3 de dezembro de 2009

Se alguém escrever um post afirmando que usa e recomenda uma droga ilícita, como a cocaína ou a maconha, o sujeito poderá ser enquadrado no que se chama de “apologia ao crime” e responder a processo penal. Aconteceu algo assim nos idos da década de 1990 com a banda Planet Hemp. Recentemente, o filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, reverberou a ideia de que quem consome drogas ilícitas é responsável pelos crimes do tráfico. Muitas respostas são possíveis, desde “Então quem paga impostos é responsável pelos crimes da polícia?” até “Quem compra carne de boi de grandes produtores do Centro-Oeste é responsável pelo desmatamento da Amazônia?” Mas essa não é a questão.

A questão é que, se alguém defender algo que for considerado crime, a pessoa pode ir para a cadeia. Mesmo que não tenha cometido o crime em si. Não seria o caso, então, de processar penalmente o comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS TV de Florianópolis, que, durante o Jornal do Almoço do último dia 30, defendeu abertamente o maior crime cometido nesse país no século passado: a Ditadura Militar? Segundo Prates, durante esse regime tínhamos “verdadeira e legítima democracia”. Quem quiser acompanhar o comentário, o link está aqui.

Ao falar que a ditadura é a verdadeira democracia, o comentarista fornece um preocupante exemplo, fora do terreno da ficção, de uma retórica semelhante à dos tiranos de 1984, de George Orwell – que diziam que guerra era paz e humildade era orgulho. Tal inversão lógica e a pobreza de raciocínio que o texto do Prates demonstra seriam, segundo análise de Umberto Eco, características do protofascismo. Nem precisaríamos ir tão longe. Os defendores da ditadura exalam totalitarismo e intolerância por todos os poros.

As chamadas “viúvas da ditadura” têm ganhado cada vez mais espaço na imprensa. Desde que o atual presidente da República foi eleito, em 2002, observamos um movimento de radicalização da direita e de retorno ao udenismo. Para certos setores da sociedade, é inconcebível que sejamos governados por um presidente de origem nordestina, baixa escolaridade e viés centro-esquerdista. O rancor desses grupos é perceptível. A minoria de insatisfeitos assume uma postura de ressentimento em relação à maioria, que ascende socialmente. É um sentimento semelhante ao dos aristocratas que tiveram de dividir seus espaços privilegiados com os noveaux riches. Some-se a isso a falência do modelo neoliberal que, a bem da verdade, mantinha a direita mais radical relativamente amordaçada. Com o declínio dos direitistas moderados, os extremistas ocupam o vácuo restante, oferecendo um novo sentido aos conservadores.

Tenho observado esse fenômeno na universidade em que estudo. Se antes prevalecia entre os direitistas um certo “elogio à burguesia”, o discurso hoje é, entre alguns, de “retorno à aristocracia” e, entre outros, um elitismo niilista – que está na base das experiências fascistas, não nos esqueçamos. Diante do sucesso patente do governo Lula e do fracasso incontestável do modelo neocon, a direita vai ao fundo do baú resgatar valores medievais e uma recusa do real que pode assumir um caráter belicista. Sem um candidato que represente verdadeiramente seus ideias e sem o aval da “massa ignorante”, como gostam de chamar, sentem que o jogo eleitoral está perdido, mas que o prêmio pode ser conquistado “no tapetão”.

Quando a revista Veja defende que o bom governo é o “impopular” e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que o governo Lula é “autoritário” apenas porque é popular demais para ser atacado, uma luz vermelha deveria se acender na cabeça de todo aquele que acredita na soberania popular. Os direitistas, ainda que por meio de subterfúgios e blefes, costumam demonstrar desprezo pelo “povo”, numa atitude elitista que lhes é peculiar e que mina a legitimidade de uma forma de governo calcada na decisão de todos e não apenas na dos “melhores”.

Comentaristas não cansaram de botar a “culpa” pela eleição do “apedeuta” na “massa ignóbil”. Chegaram a propor a divisão do país entre os que tinham a capacidade para (e, assim, o direito de) votar e os que não tinham. Sugeriram que o voto fosse facultativo para que – e isso foi dito de modo claro – somente os “bem informados” e “intelectualmente maduros” fossem votar. Ainda assim, são os direitistas que mais falam em defender a democracia – “governo do povo”, em sua raiz grega. Mas não se enganem: o que a direita quer é um “governo do povo” sem povo.

É preciso ficar de olho. Primeiro eles defendem a ditadura. Depois começam a elogiar. Por fim, passarão a propor. O passo seguinte será “salvar” a democracia por meio de uma nova “revolução” como a de 1964. A “democracia” vigorará no lugar da democracia. A “liberdade” estará garantida em troca da liberdade. Os ratos devorarão o útero e as tripas das jovens “terroristas”. Fumaça de óleo diesel penetrará nos pulmões dos que se recusam a ser tocados pela luz da “verdadeira e legítima democracia”. Do “autoritarismo populista” dos que ousam governar sob as bénçãos do povo e para melhorar as condições de vida do povo restarão apenas as conversas em voz baixa nos becos e as revoltas populares contra seus “salvadores”.

Os que ousam defender o crime assombroso que foi o período de vinte anos em que o país esteve sob o domínio dos militares deveriam receber um tratamento muito mais severo do que os que ousam defender o consumo de drogas ilícitas ou outros crimes menores. A esses que lambem as botas dos milicos que estupraram essa nação, recomendo uma semana numa cela fria do DOI-CODI, passando por todos os “mimos” que os “terroristas” receberam. Traria uma perspectiva privilegiada da maravilha que era a “verdadeira e legítima democracia”.

A paranoia da extrema-direita

30 de novembro de 2009

Há alguns anos, namorei uma mulher maravilhosa que aos poucos foi corroída pela esquizofrenia até literalmente esquecer de minha existência. O que caracterizava de modo mais perceptível a presença desse mal em sua mente era a série de delírios de perseguição e teorias conspiratórias que ela desfiava, para espanto dos que não a viam com meus olhos.

Minha ex-namorada era paranoica. Acreditava que estava sendo perseguida por alguém muito poderoso (a que jamais dava o nome, mas que parecia ser dono de metade do universo e ter poderes sobrenaturais). Afora isso, elaborava as hipóteses mais absurdas a partir de fatos dispersos de seu cotidiano. Eu a ouvia muitas vezes sem conseguir separar o que era real do que era delírio, em seus relatos.

Em alguns casos, porém, o que ela falava era tão absurdo que me desmontava, me desconstruía (não necessariamente no sentido de Derrida; como no título desse blog, “descontruir” nesse caso quer dizer tão somente “desmontar”). Era como se ela fosse capaz de deformar toda a maquinaria lógica da minha mente com uma única frase. E isso, embora me encantasse, me afastava dela.

Estamos vivendo uma situação semelhante em nosso país. Certos órgãos de imprensa, particularmente alguns colunistas que escrevem para esses órgãos, aderiram a discursos conspiratórios e fantasias políticas cada vez mais bizarras. Como na mente da pessoa a quem o senso de realidade está abandonando, as conexões entre os fragmentos de fatos vão se ligando num mosaico caleidoscópico que se sustenta tão só pela vontade, que seus mantenedores manifestam, de alimentar crenças tão fundamentadas quanto um castelo de cartas num banco de areia.

Há um conjunto de ilusionistas que são responsáveis por dar combustível à insânia do que se convencionou chamar de “extrema-direita”. Não é preciso nominá-los. Todos sabem quem são. Seus chefes os pagam para montar discursos que poriam em risco a credibilidade do periódico se fossem publicados como reportagens, uma vez que são ataques claros – e não dissimulados, como costumam ser os que vão no corpo do jornal – e sem quaisquer provas. São armas retóricas que dependem da crença de seus difusores para ganhar eficácia. São objetos de fé a incendiar a reputação dos que ousam mijar fora de sua bacia.

A paranoia dessa porção do espectro político sempre foi sua marca registrada. Espalhar lendas horripilantes sobre seus adversários, como dizer que “comem criancinhas” ou agora que “curram meninotes”, é uma arma com que os obscurantistas defensores da Tradição, da Família e da Propriedade tentam subjugar as mentes suscetíveis. Cultivadores do medo, querem paralisar o pensamento, porque este se opõe a eles. Tudo que desejam é poder dominar uma massa tornada raquítica, a pedir a benção dos poucos “mais fortes”.

O método não mudou: a extrema-direita sempre viveu da ignorância e do medo. A novidade é que, o que há alguns anos, ficava restrito a grupos sem voz, como a própria TFP, os seguidores do Mídia sem Máscara, os discursos vaiados do Bolsonaro e as viúvas da Ditadura com seu “Terror Nunca Mais” (Ternuma), começa a ganhar mais espaço e avança sobre grandes periódicos, publicando suas sandices com a aprovação de editores irresponsáveis e consumindo o resto de credibilidade dessas revistas e jornais.

A ficha falsa da Dilma é um exemplo de como algo que foi divulgado inicialmente pelo Ternuma e difundido em spams pelos extremistas acabou ganhando a primeira página de um jornal que até o início da década passada era um modelo a ser seguido por todos os jornalistas – ao menos era o que nos ensinavam na graduação.

Junte-se a isso o bafafá em torno do suposto sequestro que o grupo “terrorista” da ministra “podia ter cometido” nos idos da ditadura e pode-se ver que a aproximação entre os extremistas da direita e certos periódicos nacionais não é mais uma teoria conspiratória insensata – como alguns dirão. Trata-se de um fato: parte da imprensa namora com a extrema-direita. E o faz de modo tão ostensivo e diante dos olhares de tantos, que devia ir presa por atentado ao pudor.

O fruto mais recente desse nheco-nheco ideológico é a publicação e a repercussão do texto de César Benjamin em que ele acusa o presidente Lula de ter tentado currar um jovem enquanto esteve preso. Sem apresentar qualquer prova, houve quem imediatamente concordasse com “Cesinha” e afirmasse que Lula era sim um estuprador. Montaram o delírio, deram corda e agora um sem-número de lunáticos repetem à exaustão a fantasia anti-Lula por que tanto ansiavam com a boca espumando.

Não bastasse isso, já há um upgrade dessa farsa. Na sexta-feira, ouvi de um direitista nada moderado que o ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, fazia parte do MEP, o movimento do suposto menino estuprado, e que sua morte ainda não havia sido esclarecida. Pronto! O mosaico de fragmentos de fatos está montado. Para os esquizofrênicos da política, Celso Daniel seria o menino do MEP que teria sido estuprado por Lula e foi morto pelo PT para que a verdade não viesse à tona. Ufa! É difícil acompanhar tal raciocínio. Tortuosos são os caminhos da loucura.

É preciso estar atento para os spams divulgando essa versão, que com certeza não saiu da cabeça da pessoa com quem conversei, mas de algum dos fazedores de delírios que infestam as redações dos jornais. Se há quem caia ainda hoje na história da aprovação do “fim do 13º”, como não se preocupar com o estrago de tão elaborado e convidativo absurdo nas mentes suscetíveis que ainda não sucumbiram à insânia?

Nos EUA, a paranoia da extrema-direita está pouco a pouco retomando o poder no país e conduzindo o governo em direção a uma nova era Bush. No Brasil, não são poucos os delirantes que gostariam que déssemos uma guinada de volta aos “bons tempos” da era de chumbo. Os profetas do caos voltaram a ter voz. Convém calá-los com a melhor arma que nos foi confiada: a verdade.

Julgamento pelo testemunho

29 de novembro de 2009

Quem acompanha a grande imprensa contemporânea, seja indo direto à fonte, seja através dos textos republicados na blogosfera, já deve ter percebido um fenômeno interessante: o jornalismo tornou-se um amontoado de “denúncias” baseadas tão somente no velho e juridicamente espúrio diz-que-diz-que.

Declarações de supostas testemunhas têm recheado as páginas de publicações outrora dignas de algum apreço por parte do público usual de informações jornalísticas críveis. Essas declarações, que deveriam ser o ponto de partida das pautas e não o cerne da matéria pronta, constituem a base de julgamentos sumários realizados por certos órgãos de imprensa interessados em destruir reputações.

O princípio que fundamenta a instituição jornalística é algo que aprendemos no primeiro semestre da graduação: só se publica o que se pode provar. Mesmo que o próprio jornalista testemunhe um acontecimento digno de primeira página, a matéria daí decorrente só poderia constar na edição final se viesse devidamente fundamentada através de evidências o mais possível incontestáveis.

Governos inteiros podem ser derrubados por um único memorando encontrado pela pessoa certa. Isso é a base de nossa profissão. Sem isso, qualquer um publicaria qualquer coisa em um jornal. Sem isso, o diploma de jornalista para exercer a profissão seria de fato inútil.

Nos últimos tempos temos assistido a uma crise institucional do jornalismo. Ela tem sido em parte gerada, em parte agravada, pelo descarte do princípio do apoio nas evidências. As “reportagens” que produz muitas vezes só fazem alimentar os fanáticos distribuidores de spams políticos com as mais estapafúrdias teorias conspiratórias.

Seja a remessa de dólares de Cuba para financiar uma campanha do PT, seja o inexistente encontro da ministra Dilma com uma funcionária para pedir o engavetamento das acusações a um aliado, seja – agora – a acusação de que o presidente Lula teria tentado estuprar um jovem quando esteve preso há quase 30 anos.

O que mais chama a atenção de quem acompanha o declínio do jornalismo em direção ao convescote de lunáticos que está se tornando é o caráter de julgamento sumário de figuras públicas, que ela tenta imprimir.

O simples fato de uma acusação (não mais um relato, mas uma acusação) estar impressa em um periódico torna-se, quase instantaneamente e sob uma lógica que escapa à percepção, a única exigência para condenar (não só moralmente, mas até mesmo legalmente) o indivíduo alvo dos ataques midiáticos.

Como se a figura do defensor fosse expulsa da sessão e só restasse ante o réu da ocasião um promotor desproporcional. Como num julgamento kafkiano, não há o que o acusado possa dizer que não seja imediatamente convertido em confissão; ele está condenado de véspera, não importando sua culpa.

Esses tribunais midiáticos fogem ao papel esperado da imprensa e ameaçam as instituições democráticas, eliminando o princípio de que todos são inocentes até que se PROVE o contrário e de que o ônus da prova cabe à parte que acusa.

Ouvi ontem mesmo, de alguém que devia ser mais sábio, que o testemunho em si já constitui o fato se quem o profere for “mais confiável” do que quem é atacado. Ele dizia isso para pregar em Lula o crime de tentativa de estupro de que o acusou César Benjamim.

Como se Cesinha fosse mais confiável do que Lula. Como se as provas materiais e os testemunhos de quem de fato poderia ter presenciado o suposto crime de nada valessem. Como se tudo se resumisse a uma hierarquização rígida e injusta que bota uma parte de nós na condição de criminosos imediatos.

O julgamento sumário empreendido por certos opositores ao governo Lula no caso do “menino do MEP” demonstra, mais do que apenas o mau caratismo dos que estão dispostos a dar as costas ao real para destruir seu inimigo, mas principalmente os últimos passos de uma imprensa envelhecida, que se torna cada vez mais não apenas inútil, mas mesmo nociva, ao mundo que desejamos.