O Razoável Imperfeito.

Nos Estados Unidos dos anos 1950 e 1960, o Estado do Bem-Estar Social, ao garantir o suprimento de ao menos alguns serviços essenciais a parcelas da população impedidas de vivenciar plenamente as benesses da sociedade de consumo, constituía uma válvula de escape que impedia que a insatisfação com o modelo levasse a levantes populares que pudessem ameaçar o status quo. Sabe-se que essa válvula não era a solução definitiva. Havia inúmeras falhas.

Ao estimular desejos de consumo impossíveis de serem satisfeitos e ao propagar como seu mito legitimador a “meritocracia” (que pregava, entre outras coisas, que o sucesso correspondia à soma de talento e esforço), o capitalismo industrial abriu espaço para que suas contradições levassem a uma situação insustentável. Negros, mulheres, gays e minorias étnicas logo perceberam que os melhores empregos estavam vedados para si e que, não importava o quanto se esforçassem, jamais alcançariam o nível de vida de homens brancos heterossexuais de ascendência inglesa, mesmo que estes últimos fossem muito menos competentes que eles. O resultado foi o acúmulo da revolta até que ela estourasse.

1968 representou o marco de uma nova era para os movimentos políticos, com a ascensão de novas demandas, muito diferentes das do tradicional movimento operário. A velha esquerda precisou repensar-se ante o surgimento de um nova esquerda, preocupada mais com os excluídos que com os explorados. Era o espírito da época. Graças ao keynesianismo, os cidadãos de países desenvolvidos viram garantidos direitos fundamentais, como acesso quase universal a uma educação de qualidade – o que resultou no desenvolvimento de uma juventude consciente das contradições do modelo e disposta a transformá-lo segundo demandas redescobertas.

Além de demandas de inserção econômica, como a criação de cotas para negros, mulheres e portadores de deficiência em empregos e universidades, havia também solicitações de direitos específicos como a possibilidade de interromper voluntariamente a gravidez sem ir para a cadeia e a permissão para casar “de papel passado” com alguém do mesmo sexo e adotar uma criança para ser filha de pais do mesmo sexo. Essas demandas permanecem ainda hoje. Embora haja quem acredite que elas sobrecarregam o Estado, não existe impedimento para a transformação em lei da maioria dessas demandas (se não todas). O único entrave é a reação dos conservadores.

A resposta conservadora à geração de 1968 não demorou. Ela veio na forma do chamado “neo-liberalismo”. Partindo de uma corruptela do ideal iluminista de liberdade, esse modelo previa o desmantelamento de todos os mecanismos institucionais de salvaguarda coletiva contra infortúnios individuais, como a previdência social e os serviços públicos de qualidade. Como desculpa, o pensamento neo-liberal afirmava que o Estado do Bem-Estar Social gerara insatisfação ao falhar em satisfazer todas as demandas dos excluídos, assim sendo melhor seria simplesmente não satisfazer demanda alguma. As pessoas seriam deixadas à própria sorte para que buscassem satisfazer, do modo que pudessem, as demandas que julgavam ter.

Cabe aqui outro nome que não cinismo? Trata-se de um raciocínio distorcido, do tipo a que são afeitos os satisfeitos com a desigualdade capitalista. Ora, se o Estado do Bem-Estar gerava insatisfação ao não satisfazer todas as demandas, que satisfação poderiam ter os excluídos na impossibilidade de satisfazer qualquer demanda? E como poderia satisfazer-se por conta própria alguém que mal tem acesso ao mercado onde todas as demandas imagináveis sejam magicamente satisfeitas? Se o Estado não provém e o mercado cobra caro demais para fazê-lo, como aqueles que foram postos fora da disputa por um lugar ao sol conseguirão satisfazer suas necessidades básicas?

Nesse caso, tem-se uma armadilha que poucos percebem, mas que domina grandes lotes do debate público: diante da revelada imperfeição do modelo mais razoável disponível, sempre será apontada uma solução claramente absurda. Quem propõe parte do pressuposto de que os outros acreditam inicialmente na possibilidade da perfeição. Ao apontar uma falha considerada grave no modelo adversário, ele busca exclui-lo das possibilidades à mão, deixando seu interlocutor com a sensação de vazio pela ausência de um modelo utilizável. Aproveitará o ensejo para propor sua alternativa absurda como a única viável. Se alguém empregar o mesmo raciocínio que ele e mostrar a imperfeição do modelo proposto, ele se sairá dizendo que este é o único possível. Esse caminho tortuoso esteve na base do consenso neoconservador e ainda paira nos raciocínios empregados por reacionários em diversas ocasiões.

Fui alvo de um desses quando defendi a ONU como única instância que poderia ter legitimidade para cobrar o cumprimento dos direitos humanos em todos os cantos do globo. Recebi em troca um sorriso maroto de meu interlocutor, logo acompanhado pela platéia. A pessoa a quem eu me contrapunha afirmou que a ONU não tinha força para se impor, um defeito facilmente constatável e que, em minha opinião, deveria ser corrigido. Como alternativa, ele propôs que uma hoste de “melhores” se elevasse sobre os demais – pela força, falou inicialmente, para depois desdizer-se. Essa elite global devia impor seus valores superiores a todos no mundo, não dando espaço para ninguém defender seus costumes ou diferentes sensos de justiça. O absurdo foi mais aceito do que o razoável imperfeito.

O único modo de escapar dessa armadilha é reconhecer que nenhuma opção política está livre de falhas ou mesmo de contradições internas que possam até levá-la à ruína. Cabe-nos distinguir quais são as opções razoáveis e quais as absurdas, recusar essas últimas e adotar somente as primeiras. Não importa o quão imperfeito o razoável seja, o absurdo jamais será uma alternativa viável.

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