Governo do Povo… sem povo?

Se alguém escrever um post afirmando que usa e recomenda uma droga ilícita, como a cocaína ou a maconha, o sujeito poderá ser enquadrado no que se chama de “apologia ao crime” e responder a processo penal. Aconteceu algo assim nos idos da década de 1990 com a banda Planet Hemp. Recentemente, o filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, reverberou a ideia de que quem consome drogas ilícitas é responsável pelos crimes do tráfico. Muitas respostas são possíveis, desde “Então quem paga impostos é responsável pelos crimes da polícia?” até “Quem compra carne de boi de grandes produtores do Centro-Oeste é responsável pelo desmatamento da Amazônia?” Mas essa não é a questão.

A questão é que, se alguém defender algo que for considerado crime, a pessoa pode ir para a cadeia. Mesmo que não tenha cometido o crime em si. Não seria o caso, então, de processar penalmente o comentarista Luiz Carlos Prates, da RBS TV de Florianópolis, que, durante o Jornal do Almoço do último dia 30, defendeu abertamente o maior crime cometido nesse país no século passado: a Ditadura Militar? Segundo Prates, durante esse regime tínhamos “verdadeira e legítima democracia”. Quem quiser acompanhar o comentário, o link está aqui.

Ao falar que a ditadura é a verdadeira democracia, o comentarista fornece um preocupante exemplo, fora do terreno da ficção, de uma retórica semelhante à dos tiranos de 1984, de George Orwell – que diziam que guerra era paz e humildade era orgulho. Tal inversão lógica e a pobreza de raciocínio que o texto do Prates demonstra seriam, segundo análise de Umberto Eco, características do protofascismo. Nem precisaríamos ir tão longe. Os defendores da ditadura exalam totalitarismo e intolerância por todos os poros.

As chamadas “viúvas da ditadura” têm ganhado cada vez mais espaço na imprensa. Desde que o atual presidente da República foi eleito, em 2002, observamos um movimento de radicalização da direita e de retorno ao udenismo. Para certos setores da sociedade, é inconcebível que sejamos governados por um presidente de origem nordestina, baixa escolaridade e viés centro-esquerdista. O rancor desses grupos é perceptível. A minoria de insatisfeitos assume uma postura de ressentimento em relação à maioria, que ascende socialmente. É um sentimento semelhante ao dos aristocratas que tiveram de dividir seus espaços privilegiados com os noveaux riches. Some-se a isso a falência do modelo neoliberal que, a bem da verdade, mantinha a direita mais radical relativamente amordaçada. Com o declínio dos direitistas moderados, os extremistas ocupam o vácuo restante, oferecendo um novo sentido aos conservadores.

Tenho observado esse fenômeno na universidade em que estudo. Se antes prevalecia entre os direitistas um certo “elogio à burguesia”, o discurso hoje é, entre alguns, de “retorno à aristocracia” e, entre outros, um elitismo niilista – que está na base das experiências fascistas, não nos esqueçamos. Diante do sucesso patente do governo Lula e do fracasso incontestável do modelo neocon, a direita vai ao fundo do baú resgatar valores medievais e uma recusa do real que pode assumir um caráter belicista. Sem um candidato que represente verdadeiramente seus ideias e sem o aval da “massa ignorante”, como gostam de chamar, sentem que o jogo eleitoral está perdido, mas que o prêmio pode ser conquistado “no tapetão”.

Quando a revista Veja defende que o bom governo é o “impopular” e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que o governo Lula é “autoritário” apenas porque é popular demais para ser atacado, uma luz vermelha deveria se acender na cabeça de todo aquele que acredita na soberania popular. Os direitistas, ainda que por meio de subterfúgios e blefes, costumam demonstrar desprezo pelo “povo”, numa atitude elitista que lhes é peculiar e que mina a legitimidade de uma forma de governo calcada na decisão de todos e não apenas na dos “melhores”.

Comentaristas não cansaram de botar a “culpa” pela eleição do “apedeuta” na “massa ignóbil”. Chegaram a propor a divisão do país entre os que tinham a capacidade para (e, assim, o direito de) votar e os que não tinham. Sugeriram que o voto fosse facultativo para que – e isso foi dito de modo claro – somente os “bem informados” e “intelectualmente maduros” fossem votar. Ainda assim, são os direitistas que mais falam em defender a democracia – “governo do povo”, em sua raiz grega. Mas não se enganem: o que a direita quer é um “governo do povo” sem povo.

É preciso ficar de olho. Primeiro eles defendem a ditadura. Depois começam a elogiar. Por fim, passarão a propor. O passo seguinte será “salvar” a democracia por meio de uma nova “revolução” como a de 1964. A “democracia” vigorará no lugar da democracia. A “liberdade” estará garantida em troca da liberdade. Os ratos devorarão o útero e as tripas das jovens “terroristas”. Fumaça de óleo diesel penetrará nos pulmões dos que se recusam a ser tocados pela luz da “verdadeira e legítima democracia”. Do “autoritarismo populista” dos que ousam governar sob as bénçãos do povo e para melhorar as condições de vida do povo restarão apenas as conversas em voz baixa nos becos e as revoltas populares contra seus “salvadores”.

Os que ousam defender o crime assombroso que foi o período de vinte anos em que o país esteve sob o domínio dos militares deveriam receber um tratamento muito mais severo do que os que ousam defender o consumo de drogas ilícitas ou outros crimes menores. A esses que lambem as botas dos milicos que estupraram essa nação, recomendo uma semana numa cela fria do DOI-CODI, passando por todos os “mimos” que os “terroristas” receberam. Traria uma perspectiva privilegiada da maravilha que era a “verdadeira e legítima democracia”.

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