Julgamento pelo testemunho

Quem acompanha a grande imprensa contemporânea, seja indo direto à fonte, seja através dos textos republicados na blogosfera, já deve ter percebido um fenômeno interessante: o jornalismo tornou-se um amontoado de “denúncias” baseadas tão somente no velho e juridicamente espúrio diz-que-diz-que.

Declarações de supostas testemunhas têm recheado as páginas de publicações outrora dignas de algum apreço por parte do público usual de informações jornalísticas críveis. Essas declarações, que deveriam ser o ponto de partida das pautas e não o cerne da matéria pronta, constituem a base de julgamentos sumários realizados por certos órgãos de imprensa interessados em destruir reputações.

O princípio que fundamenta a instituição jornalística é algo que aprendemos no primeiro semestre da graduação: só se publica o que se pode provar. Mesmo que o próprio jornalista testemunhe um acontecimento digno de primeira página, a matéria daí decorrente só poderia constar na edição final se viesse devidamente fundamentada através de evidências o mais possível incontestáveis.

Governos inteiros podem ser derrubados por um único memorando encontrado pela pessoa certa. Isso é a base de nossa profissão. Sem isso, qualquer um publicaria qualquer coisa em um jornal. Sem isso, o diploma de jornalista para exercer a profissão seria de fato inútil.

Nos últimos tempos temos assistido a uma crise institucional do jornalismo. Ela tem sido em parte gerada, em parte agravada, pelo descarte do princípio do apoio nas evidências. As “reportagens” que produz muitas vezes só fazem alimentar os fanáticos distribuidores de spams políticos com as mais estapafúrdias teorias conspiratórias.

Seja a remessa de dólares de Cuba para financiar uma campanha do PT, seja o inexistente encontro da ministra Dilma com uma funcionária para pedir o engavetamento das acusações a um aliado, seja – agora – a acusação de que o presidente Lula teria tentado estuprar um jovem quando esteve preso há quase 30 anos.

O que mais chama a atenção de quem acompanha o declínio do jornalismo em direção ao convescote de lunáticos que está se tornando é o caráter de julgamento sumário de figuras públicas, que ela tenta imprimir.

O simples fato de uma acusação (não mais um relato, mas uma acusação) estar impressa em um periódico torna-se, quase instantaneamente e sob uma lógica que escapa à percepção, a única exigência para condenar (não só moralmente, mas até mesmo legalmente) o indivíduo alvo dos ataques midiáticos.

Como se a figura do defensor fosse expulsa da sessão e só restasse ante o réu da ocasião um promotor desproporcional. Como num julgamento kafkiano, não há o que o acusado possa dizer que não seja imediatamente convertido em confissão; ele está condenado de véspera, não importando sua culpa.

Esses tribunais midiáticos fogem ao papel esperado da imprensa e ameaçam as instituições democráticas, eliminando o princípio de que todos são inocentes até que se PROVE o contrário e de que o ônus da prova cabe à parte que acusa.

Ouvi ontem mesmo, de alguém que devia ser mais sábio, que o testemunho em si já constitui o fato se quem o profere for “mais confiável” do que quem é atacado. Ele dizia isso para pregar em Lula o crime de tentativa de estupro de que o acusou César Benjamim.

Como se Cesinha fosse mais confiável do que Lula. Como se as provas materiais e os testemunhos de quem de fato poderia ter presenciado o suposto crime de nada valessem. Como se tudo se resumisse a uma hierarquização rígida e injusta que bota uma parte de nós na condição de criminosos imediatos.

O julgamento sumário empreendido por certos opositores ao governo Lula no caso do “menino do MEP” demonstra, mais do que apenas o mau caratismo dos que estão dispostos a dar as costas ao real para destruir seu inimigo, mas principalmente os últimos passos de uma imprensa envelhecida, que se torna cada vez mais não apenas inútil, mas mesmo nociva, ao mundo que desejamos.

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2 Respostas to “Julgamento pelo testemunho”

  1. luiz barbosa neves Says:

    Meu caro Diego, primeiro parabéns pela inciativa. Sei que você é dedicado a pesquisa midiológica para abordar os temas com propriedade e racionalidade.
    Agora, já apareçe nas pesquisas que a atitude raivosa dos eleitores do DEM e PSDB causa muita indignação ao eleitor comum. Ou seja tira voto.
    Abraços, serei seu leitor.

  2. Diego Calazans Says:

    Obrigado pelo apoio.
    Espero contar sempre com seus comentários.
    Abraços.

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